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sábado, 7 de outubro de 2017

Pajubá - O Terrorismo Marginal, Preto e Revolucionário de Linn da Quebrada (Resenha)



"Pajubá é o nome da linguagem popular constituída da inserção em língua portuguesa de numerosas palavras e expressões provenientes de línguas africanas ocidentais, muito usado pelo chamado povo do santo, praticantes de religiões afro-brasileiras como candomblé e umbanda, e também por mulheres transexuais e pela comunidade LGBT como um todo.

A linguagem é baseada em várias línguas africanas umbundo, kimbundo, kikongo, nagô, egbá, ewe, fon e iorubá, usadas inicialmente em terreiros de candomblé. Criado originalmente de forma espontânea em regiões de mais forte presença africana no Brasil, como terreiros de umbanda e candomblé, o dialeto resultante da assimilação de africanismos de uso corrente, por resultar incompreensível para quem não aprendesse previamente seus significados, passou a ser usada também como código entre travestis e posteriormente adotado por todas as comunidades LGBT+"

E foi esse o nome escolhido por Linn da Quebrada para ser título de seu novo álbum de financiamento coletivo,  que por si só, complementa a ordem de militância lgbt+ de seu conteúdo.

Com letras que recorrem a expressões diretas sobre sexualidade e gênero, Linn da Quebrada surge com um Álbum que lembra a importância carregada de simbologias e discursos de liberdade que a era da Valesca do funk trouxe pro feminismo de liberdade sexual feminina. Linn assume esse papel mas, de maneira terrorista como a própria declara, demonstrando um alento de liberdade e controle sobre o próprio corpo de preta, travesti, periférica, afeminada e bicha.

Todas as canções que compõem o álbum trazem em seu cerne repetições como afirmações, de termos como cu, piroca, pica, rabo, macho, bixa, afeminada. Como uma maneira de ditar que os corpos marginalizados das travestia e bixas afeminadas lhes possui. São delas, para serem vivenciadas como bem quiserem. É quase como um ritual de percepção e de desbravamento por ocupação de seus espaços de direito negados pela sociedade e pela heteronormatividade cis branca e patriarcal. O corpo da travesti por si só é uma subversão dos padrões estabelecidos pela sociedade que molda e determina como devem ser feitos, vistos e usados. Por ser preta, Linn ainda se utiliza de sua negritude para trazer mais peso nas batidas e acordes das músicas remetendo a cânticos e rituais tribais. A sonoridade que mescla funk com distorções e sintetismos quase que de maneira psicodélica quando se escuta com fones de ouvido - tanto nos instrumentos como na voz, que possui camadas que flertam justamente com o feminino e o masculino, o erótico e o bruto - ganham ares de palavra de ordem contra conservadorismos e a marginalização.

Linn canta que não é feita pra se esconder. Não é feita para ser usada quando não queira, que não é ela ou ele. Que Linn é Linn.  Assim como as travestis são travestis. Ela canta sobre opressões e discriminações através de estereótipos de gênero e conduta. Canta sobre sexualidade vasta sem regras e de independência pelo próprio prazer. Canta sobre a carne negra que resiste e grita, pra de dor e ora de terror. Canta sobre como as vielas dos becos das favelas e pontes são semelhantes as vias das veias, do sangue e das rachaduras que o povo lgbt+ carrega por existir. Pajubá, ironicamente utiliza desse "dicionário" da cultura lgbt+ para fazer-se entender de forma reta. Sem entrelinhas.

De forma suja, nojenta, baixa, vulgar, sombria e verdadeira. Um trabalho que ganha contornos de obra artística quando percebido através dos áudio videos em seu canal do YouTube para todas as 14 faixas. Com participações de Mulher Pepita, Liniker, Gloria Groove dentre outres, Linn da Quebrada parece ter deixado claramente escuro, que chegou a hora do mercado fonográfico abrir espaço não só pra cis gays ou cis lésbicas e bis, ou para drags. Mas, chegou a hora de transvestir-se para ser ocupado pelas travestys.

Nem que esse espaço tenha que ser aberto a força, como um Ocâni odara didê num edí.

Necessário e (re) existência.
Minhas preferidas: "Submissa do 7° dia", "Bixa Travesty", "Transudo", "Necomancia", "Enviadescer", "Pirigoza" e "Serei A".


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Na Pele - O Mergulho de Elza e Pitty

Em meados de 2013, Pitty começava a se preparar pra retornar aos palcos e, assim, lançar seu mais recente álbum que nasceria em 2014 sob o título de "Setevidas".

O álbum contava com uma narrativa cíclica onde Pitty mostrava todo seu processo de vivência dos últimos anos, desde uma experiência de quase morte, ate as perdas profundas de várias formas e contextos. No álbum, era como se víssemos ela se reconectando com uma essência que estava aprendendo ou reaprendendo a enxergar. E pra isso, ela passa por estágios de busca e fusão com uma selvageria e sabedoria animal, ate a conceitos de elementos de alquimia e crenças à Ouroboros com direito a mantra de Shyva.

No entanto, uma música fora concebida nesse processo, mas não parecia que possuía ainda lugar no mundo. A música não parecia ornar com aquela narrativa de Setevidas.

3 anos depois, a música achou seu caminho pra nascer. Através da Voz do Milênio.
''Na Pele'', letra de Pitty dada de presente a Elza Soares, parece ter sido criada pra ser entoada pela voz única da Mulher do Fim do Mundo. Lançada na madrugada do dia 03 pro dia 04 de Agosto, a musica desde seu arranjo denso e sombrio, com uma aura de profundidade que expressa diversas interpretações e sentidos. Ate a sua letra, que não só remete diretamente de forma incrível a trajetória de Elza, como a de cada pessoa, principalmente de minorias sociais, oprimidas e que precisam lutar e resistir mil vezes mais pra sobreviver e nesse espaço de tempo, tentar achar modos de, de fato, viver.

Podemos enxergar a batalha de cada mulher no mundo, que carrega na pele, na raça, na resistência, marcas e rachaduras profundas - às vezes visíveis, às vezes ocultas - das pancadas e dificuldades da vida. Podemos enxergar de maneira maior, ate mesmo um paralelo pontual com a situação global e de situação política do país. Onde um povo saturado e por vezes cansado de caminhos esguios, continuamente se afogando e renascendo sobre e, sob as águas de lamúrias e guerrilhas. pra continuar existindo.

Na Pele recebe assim, características de Hino. Um hino atemporal, com ares de rock tanto por sua atmosfera, quanto pela presença dessas duas mulheres distintas e roqueiras, cada qual a sua maneira.

Em 2015, através do álbum, de inéditas ''A Mulher do Fim do Mundo'', Elza ressurgiu feito fênix, ornamentada em seu trono digna de uma orixá divina e sobre-humana, entoando cânticos e mantras de resiliência e força. De tristezas profundas, mas também de amor. De dores alem da imaginação e de uma mulher negra que insiste em permanecer seu caminho através de sua voz, presença e sabedoria.

O fim do mundo de Elza não tem fim. Ele é eterno e contínuo. Entre Ouroboros na terra e a Fênix no fogo. O Álbum, perpassa também uma essência de reconexão dessa mulher, com seu mais profundo instinto animal. Prazer, Luta, Empoderamento feminino, social e politico. Um Álbum Obra, na arte.


Na Pele, quase que completa o ciclo de elementos. Se Pitty explorara em seu "Sete", elementos como a terra, o ar, e o fogo - assim como Elza em seu "Fim do Mundo" -, em Na Pele, temos a água. Pela metáfora da água, que nos banha, nos afoga, da onde a vida se faz cria e recria, de onde é possível desbravar mundos jamais conhecidos pelo homem, em profundidade, escuridão e cores diversas. Pela água que chove e evapora, que congela e derrete. Entre veios - fissuras - vales, e leitos que não repousam. Tal qual a vida de Elza. Tal qual a percepção de cada mulher ainda no mundo. De cada travesti feito Benedita de Elza. Tal qual cada pessoa oprimida de pele preta e pobre também. Tal qual a vida. E há quem acredite que o quinto elemento - a alma - possa vir através dessa união.

A poesia da música transcende explicação, ainda que tenha compressão imediata a cada um.

Esse que escreve, por exemplo, se ouviu e sentiu pelo timbre cansado e vivo da DElza e pela suavidade já não tão rara hoje em dia, mas densa de Pitty, através da depressão que lhe consome e que se enxergou sendo traduzida em versos como: "se essas são marcas externas, imagine as de dentro''. 

Água que traduz lágrimas e saliva pra umedecer e não emudecer boca seca e muda.
Entre aventuras e fugas.

No clipe, lançado hoje, dia 07 de Agosto (não por acaso, quando pensamos em energias do universo, dia em que a Lei Maria da Penha completa 11 anos, e com a qual Elza já retomara o assunto continuo em sua carreira, através do outro hino "Maria da Vila Matilde"), dirigido por Daniel Ferro, ambas mulheres, do passado e do futuro, nos mostram entre recortes de arquivos que contam parte da trajetória de Elza pelo Tempo, a força presente em ambas pra cantar o que trazem consigo. Em suas jovens rugas de risos, ora rasos, pra rotos.

Fincadas em figurinos igualmente simbólicos, o clipe mescla imagens dessa trajetória de Elza, com as duas artistas em solo de terra seca, com galhos e arvores. Que remetem, tanto ao tempo, quanto a própria criação. Tanto pelo elemento da terra em contraponto com a água e o fogo, quanto a força de renovação da natureza inerente a todos nos enquanto animais vivos. Há passagens através de fotos e videos, de sua carreira pela musica, e cinema, da mãe de Elza, de seu filho que transcendeu o plano terreno ainda jovem, e de Garrincha com quem Elza fora casada.

Com um jogo de luz e sombras, a face próxima aos 40 de Pitty, se confundem com a face dos 80 de Elza. Quase como se essas duas mulheres fossem uma só. Pele branca de textura jovem e alma antiga, e pele negra, de textura vivida e vívida e alma sempre jovem. Concretizando esse encontro de gerações.

Elza disse numa entrevista: "Quando recebi 'Na Pele', foi na pele mesmo que senti. Me arrepiei. Identificação total, cara. Quando li o trecho 'o olhar tentado e atento. Se essas são marcas externas, imagine as de dentro'. Ali tomei coragem e escutei, enlouqueci. Pitty é doce e rocha ao mesmo tempo. É como se de algum modo eu me enxergasse no olhar dela, uma Elza lá de trás. Estranho é que quando ela me olha, sinto como se enxergasse uma Pitty lá da frente. A música selou essa conexão maluca", afirmou em comunicado à imprensa."

No icônico Trono de Elza Soares, Pitty se senta, para que em seu lugar, Elza se sustente de Pé. Formando assim, talvez, a sequência mais forte e significativa dessa experiência.

Quando se pensa em toda a história de vida de Elza, entre abusos, mortes, enfermidades, discriminações, racismos, machucados - literalmente - carregados em cicatrizes sob a pele, ossos, memória e coração, Na Pele surge enfim como uma Oração.

E ao final, o que nos resta é sentir a bênção dessas gotas e, deixa-las serem absorvidas pela pele, e amém.
É dar play e mergulhar.



Ficha Técnica do Clipe: 

Direção e edição: Daniel Ferro
Produção: Nathy Kiedis
Direção de Fotografia: Riccardo Melchiades
Finalização e cor: Daniel Ferro e Riccardo Melchiades
Assistente de direção: Pv Cappelli
Diretora de arte: Beatriz Moysés
Video Mapping: Ana Carolina Beraldo
Vídeo Mapper: Aninha Beraldo
Efeitos Visuais: Pedro Magalhães
Eletricistas: Jorge Pimentel, Igor Fabio, Damião Castro e Gleason Barbosa
Assistente de Produção: Rômulo Junqueira
Styling Elza Soares: Léo Belicha
Assistente Styling Elza Soares: Kaká Toy
Beauty Elza Soares: Wesley Pachu
Styling Pitty: Juliana Maia
Beauty Pitty: Omar Bergea



Letra:

Composição: Pitty
Interpretes: Elza Soares e Pitty
Músicos: Duda (bateria), Guilherme Kastrup (percussão), Marcelo Cabral (baixo e synth), Martin (guitarra) e Rodrigo Campos (guitarra).


Na Pele


Arte de Capa do single: Eva Uviedo

Olhe dentro dos meus olhos
Olhe bem pra minha cara
Você vê que eu vivi muito
Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva
Do meu riso raso e roto
Veja essa boca muda
Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo
Dessas minhas jovens rugas
Conquistadas a duras penas
Entre aventuras e fugas

Observe a face turva
O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio









segunda-feira, 28 de novembro de 2016

(Comentário) Gilmore Girls: A Year in the Life



(Esse texto não é uma resenha, nem uma critica. É apenas um comentário pessoal de um fã  sobre uma obra que marcou e esta alem da pele)


(CONTÉM SPOILERS)






Depois de mais de 9 anos de espera, finalmente Gilmore Girls ressurgiu.

Após sete temporadas clássicas que a consolidou como uma das series mais queridas e bem escritas - por seus diálogos rápidos e repletos de referencias, e seu cunho feminista numa época onde a  militância ideologia ainda não era tão clara na TV - a serie ganhou um Revival de 4 episódios de 90 minutos de duração aproximadamente acada, para concluir a historia à maneira que seus criadores, o casal Palladino queriam, mas que foram impedidos de finalizarem à 9 anos atrás por terem sido retirados da direção/roteiro da serie na sétima temporada.

Intitulado Gilmore Girls: A Year in the Life  (Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar), o revival estreou completo na Netflix no dia 25 de novembro as 06h da manhã (horário de Brasilia) e euzinho como bom fã que sou da serie, protelei o máximo que pude, mas finalmente terminei os 4 episódios e só sei chorar, tremer e ficar bem bravo. Mas explicarei por que.

O Revival foi tomado por ciclos. Desde a estrutura formada pelas quatro estações, ate pela característica dessa vez mais evidente de nascimento, crescimento, amadurecimento e morte, ate mesmo as gerações de Gilmores, ate pelas ações na narrativa que iniciavam ciclos que deviam se completar de alguma forma. Definitivamente foi um revival para términos. Para conclusões.
Em cada detalhe ASP fez questão de incluir passagens seja em falas ou em olhares de personagens e suas aparições, conclusões de tramas ate que nem necessitavam de fato de conclusão, mas que eles acertadamente concluíram mostrando quais os caminhos que aqueles personagens icônicos levaram ou levariam nesses anos todos.
Assim é natural vermos Sookie largando seu lar e indo atras de novos cheiros e texturas em contato com a terra e a natureza. Sookie sempre foi uma Chef de cozinha brilhante quase sobrenatural no seu dom de combinar gostos, cheiros, sabores em pratos infalíveis. Mas, desde a primeira temporada ela tem uma preocupação em se reinventar. Em criar e não apenas reproduzir receitas. O dom dela é justamente a originalidade de ter pratos com sua marca. Assim como ha cantoras que reconhecemos de longe pelo tom de voz, pela letra da musica, Sookie de maneira inexplicável reconhecíamos pelos seus pratos. É reconhecer a genialidade daquela mulher na primeira garfada (algo que sabemos existir com o a relação da Lorelai com o café do Luke por exemplo rs). Cada aparição por mais breve que tenha sido foi satisfatória como devia ser. A Cidade de Star Hollow congelou no tempo em sua estrutura mas acompanha a passos talvez lentos mas acompanha os avanços e novidades do mundo. As referencias a Game Of Thrones, a The Walking Dead, a Katy Perry, a Narcos estão ali. Mas o que sempre encantou naquela cidadezinha é seu poder de nos transportar para um local paralelo do mundo exterior onde se forma como um refugio do caos desse mundo contemporâneo. Quem nunca quis morar ou visitar Star Hollow?
A morte do patriarca Gilmore obviamente ao contrario do que provavelmente era planejado no roteiro original de anos atras, permeia todo o revival. Sim ele esta morto mas não deixou de estar presente. Richard Gilmore tem seu rosto, nome, altura e presença em cada cena. Não só na influencia de sua perda na vida dessas três mulheres, mas também no próprio tema da serie: ciclos.

Um bom ciclo - alo, alo Rei Leão rs - é cíclico, ele é redondo. Começa onde termina e termina onde começa. Com pequenas mudanças no trajeto e forma, afinal o passado jamais volta, ainda que o eco seja parecido vindo de lá de trás, ele acaba ali no futuro pelas influencias do presente. Fecha o circulo mas de maneira própria.
E foi assim o final dessa serie. Eu como fã fiquei revoltado com a esperteza da ASP de manter Gilmore Girls sendo uma fabula. Sim, é uma serie que trata de assuntos bem reais e essa temporada em si de assuntos extremamente contemporâneos, principalmente no que diz respeito as Lorelais; mas a serie jamais se deixa enganar na sua formação de ser uma grande fabula. Todos caricatos, todos em situações absurdas de ocorrerem em qualquer lugar que não uma Hogwarts ou um mundo de Oz. Star Hollow e tudo que passa por ela são locais saídos de livros fantásticos de programas de tv e telas de cinema. E isso que encanta. Ele tem sua dose critica da nossa realidade aqui terrestre mas mostrada com a segurança naquela magia fantástica de um mundo alternativo. Por tanto seu final merecia e precisava ser fabulesco. Precisava ser o que muitos chamarão de clichê, mas que se enquadra como único final digno de tal narrativa que explica que cada grito que se dá atravessa gerações ate ser entendido.

Vimos Lorelai fazer as pazes com sua necessidade constante de renovação, de independência, de controle absoluto de sua própria vida, em suma, vimos sua redenção finalmente em se entregar a uma vida a dois. Vimos suas pazes com sua mãe, e com seu pai. com sua essência, a sua maneira. Sem pedidos de desculpa, sem reconhecimento de erros e injustiças. Apenas mãe e filha entendendo como são, quem são.
Vimos Rory representar o que sempre representou: a geração do momento em tela. Cada fase de Rory representou a geração do ano em que se exibia a serie. E hj em dia, a geração - minha geração - dos 25/30 anos passam pelos mesmos desafios e duvidas que ela. Se Lorelai enfrenta planos concretos que aparentam estar se quebrando e sem sentido. Rory, enfrenta a dificuldade de construir esses planos por causa do mundo que não espera mais que a gente os escreva e os entenda. A geração de Lorelai possuía o fator do tempo. De poder arriscar-se e voltar da onde saiu caso o plano falhasse. Emily é da geração onde ela não possuía a possibilidade de riscos ou planos. Eles ja haviam sido formados e decididos por ela. Bastava a ela segui-los. Rory no entanto é da geração onde tudo é possível,. os planos ou nenhum plano. Onde são milhões de possibilidades te empurrando e de chamando ao mesmo tempo, tantos que minha geração se vê paralisada, sem saber qual caminho seguir, justamente pq somos formados por muitas características. Antes ou se nascia para ser medico ou advogado. Hj somos construídos podendo ser médicos e advogados e cozinheiros, e jornalistas e donos de clinicas de fertilização e ainda bateristas de banda de rock. Podemos ser qualquer coisa, mais de uma coisa apenas e isso assusta. Pq jamais sabemos para onde ir. Rory representa esse caos, esse pesadelo.Essa busca por si mesmo. Crise dos 25 tantos anos e alem.
E Emily não morreu apos sua geração. Por tanto coube a ela permanecer tendo que se adaptar a todas essas gerações apos ela. Colocando em check sua construção de sempre. Ela foi criada para crescer e casar e viver pelo e para o marido. Mas, quando esse marido morre, abre-se um leque enorme de possibilidades que ela jamais pensou precisar enfrentar. Rory enfrenta o mesmo, mas ela tem a vantagem da juventude. Emily não. E isso desespera. Isso machuca. Isso torna caos o que era calmaria. Essa matriarca Gilmore enfrenta isso da melhor maneira, tornando-se aquilo que sempre foi: uma força incontrolável da natureza. No final das contas essas três mulheres são idênticas, só mudam de idades.

Mas, o que mais esta deixando todos entre um misto de raiva e emoção é o final. As 4 palavras finais, que comentei brincando num post de internet e realmente ocorreram exatamente como imaginei (só errei o local, achei que seria no Lukes mas foi no Gazebo).
Rory enfrentando o mesmo que sua mãe no passado, Se antes Lorelai engravidou sem casamento aos 16 anos. Rory agora engravida provavelmente de uma menina pro ciclo continuar, aos 32/33. Com o dobro de idade, Rory tem a vantagem de refazer a saga da mãe, de escrever e refletir num livro sobre sua própria criação e tomar a decisão que ela sempre sofreu para fazer: em que mundo ela se encaixa. No mundo dos avos ou no mundo da mãe. Rory sempre foi descrita como uma Lorelai mais nova. Mas a verdade é que ela consegue unir os dois mundos - o que Lorelai construiu e o que Lorelai fugiu - num único lugar particular próprio. Se antes Lorelai engravidou de Christopher, agora Rory Engravida de Logan. E ambas as relações são equivalentes. E ela entende isso no momento em que engravida. Logan no final das contas é o que sempre achei que ele fosse para ela. Ele é o alivio de todos seus pesos, de tudo aquilo que Rory é mas não sabe lidar. Logan é o cara que não apenas leva a garota ao parque de diversões, ele constrói um parque para a garota. Logan é o cara para quem ela sempre se entender
, sempre se divertira. Enquanto Dean como já sabíamos, mas a serie quis reafirmar isso, é o cara que lhe daria a segurança. Dean é seu Richard. Dean é a representação de uma vida regrada e familiar clássica que sua avo sempre quis para si - sem o adicional do dinheiro, claro -. Dean representa segurança. Representa certezas. Mas, jamais foi feito para ser o certo. Para o ser o eterno. Afinal com Dean ela teria sempre os almoços de domingo e os sábados no parque. Mas, Rory não é só Emily, Rory é Rory. Ela é uma mistura.
Da mesma forma que Logan é seu Christopher. Ele é o afastador de tédio. É a aventura. É a juventude. É o desafio. É o risco. É o pulo constante no precipício segurando um guarda chuva. Logan é surpresa, é a falta de previsibilidade que tanto a fascina. Mas, novamente ela não é somente isso. Afinal, ela precisa de solo. Ela precisa de lar também. Ela precisa de planos. Ela precisa de suas listas de pros e contras de sempre. Seu mundo é uma mistura disos tudo. De aventura e lar.
E aqui entra Jess. Que amando ou não, criticando seus abusos ou não, é um personagem que desde o inicio é a cara de Luke. Ambos são iguais. Luke era Jess na adolescente. Luke sempre foi igual a Jess, sem o adicional da leitura claro, mas tudo que compõe Lukes adulto, antes passou pelo Luke adolescente que é idêntico a Jess. Briguento, rabugento, bad boy, revoltado, inadequado para demonstrar sentimentos. No entanto Jess possui aquela camada diferente que é o que o liga a Rory: ele não teve a construção familiar do Luke. A construção familiar do Jess é parecida com a de Lorelai no que diz respeito ao que ela sentiu sempre com relação aos pais, não deles com ela, claro. Em resumo, Jess é o balanço final entre aventura e riscos que Logan tem a oferecer, e o lar e segurança de sempre estar la para ajudar que Dean sempre foi.
Jess representa o Luke de Rory. O amigo que jamais se tornará apenas um amigo. Um amigo que vai construindo um laço de respeito e intimidade tão grande onde um conhece o outro de tal forma, onde ouve, sobretudo ouve o outro de tal forma que caminham.
Com qualquer um desses, ela sempre seria feliz. De varias formas diferentes. Mas, a questão nunca foi eles. Jamais será.
Nenhum desses caras são necessários de verdade. Eles representam apenas algo que já existe nela. Que existe na Rory, eles são apenas a manifestação externa de algo que ela possui sozinha. Não estão ali para completar nada, estão ali para representar apenas o que ela mesma seguira ou não, depende de sua escolha. Ate pq, se Dean, Jess e Logan, são representações modificadas e atuais de Richard, Christopher e Luke, é obvio, que a relação dela com estes não seria/será idêntica, Assim, não vejo um Logan sendo Chris ao descobrir a gravidez. Mas, sim vejo uma Rory sendo Lor ao contar/deixar ele saber.
Assim é natural que tenha sido Jess a sugerir que ela escrevesse a serie que estamos assistindo e nos apaixonamos. é Natural que seja Jess a apontar que Rory nasceu para escrever Gilmore Girls.
e é mais natural ainda, que o ciclo se feche ou se abra, com uma nova possível Gilmore Girl surgindo, sendo criada por sua mãe apenas, com ajudas pontuais de um 'melhor amigo' escritor que sempre estara lá para ela finalmente. Ate um dia quem sabe....

Jess levou anos para entender que seu lar residia justamente naquela que lhe fez referencia a Oliver Twist. E Rory sempre soube que ela nasceu para contar e fazer historia sendo ela. Levando cada pedaço que a construiu, para formar algo único. Entre erros e acertos, tal mãe, ela filha.tal vo, ela neta.

Um final perfeito, mas que fica com aquele sabor marqueteiro de que poderia continuar. Se continuara ou não (parte de mim não quer que continue, tudo precisa terminar afinal), mas outra parte entende que não poderia ter havido um final melhor. Afinal, a letra de abertura da serie diz tudo o que precisávamos saber sobre esse encerramento, Seja no campo ou em NY, seja como for, as Gilmores Girls seguirão para onde decidirem ir, pois sempre estarão ali uma ao lado da outra da maneira que for. Foi um prazer retornar <3

''Where you lead
I will follow
Anywhere''


terça-feira, 19 de julho de 2016

Resenha: Closer - Perto Demais

O que somos de verdade? O que realmente escondemos por detrás das aparências?
Parece clichê. E o é. Essa indagação é constante entre os humanos em sociedade, pois nunca se consegue um consenso sobre. As relações humanas são algo tão ou mais complexas do que o próprio ser humano e este em existência talvez.





Com um titulo ironicamente certeiro. Closer - que recebeu no Brasil o subtitulo "Perto Demais" - é um filme sobre distanciamentos. Sobre estranhos, como o roteiro escrito por Patrick Marber - baseado em sua peça de teatro de mesmo nome - faz questão de repetir e evidenciar varias vezes, em momentos chaves do longa; e dirigido por Mike Nichols.

Temos o escritor, a fotografa, a stripper e o dermatologista. Se pensarmos nas alegorias e eufemismos que o escritor ama utilizar em seus trabalhos, podemos estabelecer aqui uma dinâmica do que o filme pretende refletir. 

A fotografia nada mais é do que uma representação do real. Assim como as palavras, que são captações da realidade - sejam elas físicas e terrenas ou imaginarias e utópicas -. A pele que muitas vezes nos rotula e nos apresenta e encobre, nada mais é do que uma representação física, do que somos. Uma embalagem, que esconde o que realmente somos por dentro - entre coisas empíricas, ate mesmo coisas clinicas como ossos, carne e sangue, células. E a nudez, assim como a derme, nada mais é do que o ato de aparentar estar despido diante de olhos de Outros. Quando na realidade, a nudez real do verdadeiro Eu, jamais ocorre nem mesmo diante do espelho muitas vezes, à própria pessoa.

Dan, Alice, Anna e Larry. O escritor frustrado que escreve sobre pessoas mortas. A stripper que parece estar sempre fugindo e a procura de algo. A fotografa que bem sucedida que parece nunca estar satisfeita com seus próprios cliques. O dermatologista que continuamente tenta desvendar algo alem do que parece ser capaz de conseguir.

São quatro pessoas que se interligam e representam as nunces das relações humanas, românticas e ate mesmo fraternais e em sociedade dos humanos ao longo dos anos. Tudo isso massificado numa representação inclusive física de descrever essas nuances. vejam, Alice a mais misteriosa dos quatro e no entanto representada por uma mulher de aparência frágil, pequena, constantemente em mudança - seus cabelos esvoaçam em cada leitura da maneira que surge em tela, e isso diz muito sobre seu caráter. Ou mesmo Anna, uma mulher alta de aparência segura e forte, mas que desmorona ao primeiro toque, ao primeiro beijo, as primeiras constatações de realidade e duvidas. Dan e Larry, ambos homens inegavelmente sedutores, olhos claros, brancos e padrões, que por trás da sedução e segurança das palavras, escondem pequenez e brutalidades que se desenvolvem e se escancaram ao menor sinal de perda de ego.

São personagens a procura de algo. A procura de sentido. Que se envolvem pelo prazer e remontam isso, associando com amor romântico. Aquele de fases. Do humorado ao possessivo. nenhum deles parece de fato estar seguro em nenhum momento. tentam a todo custo serem honestos com todos e com eles mesmos, jogando um jogo entre verdades em detrimento de mentiras, tentando assim serem fieis ao que são, mas recaindo justamente por isso, em infidelidade, tristezas, frustrações, caos, dor, lagrimas e desespero. Personagens que tentam a todo custo achar a formula de se relacionar com o Outro e acabam sendo os próprios clichês aterradores de suas próprias vidas. Tudo embalado por uma trilha sonora branda, gostosa, quase piegas e que serve para relaxar e entristecer na mesma medida.

Afinal, quem nunca se apaixonou ou achou se apaixonar.? quem nunca se perguntou qual a melhor coisa: a verdade ou a mentira útil? A verdade que destrói ou a mentira útil?

Prazer e amor, devoção e respeito, posse e companhia. Tudo se mescla numa epopeia - ou quase - romântica - ou em ausência de uma -, caracterizados por esses 4 personagens.
''Quem Tem Medo de Virginia Woolf?'' - do mesmo diretor - a cerca de 50 anos, já mostrava esse embate, onde as pessoas que mais estamos ligados, mais perto, em maior 'Closer, são justamente aquelas que acabamos por menos conhecer, menos prever. São as que mais sabemos machucar justamente por serem quem nós mais queremos amar.

A diferença é que se em ''Woolf'' tínhamos uma clareza de intenções desde o inicio, aqui em ''Closer'', tudo vai se enrolando mais e mais a medida que o longa avança. Pois os personagens fatidicamente creem que estão seguindo os caminhos mais honestos para eles mesmos e para os outros envolvidos.

Mas, não por acaso, justamente a pequena, a de cabelos sempre em mudança, a menos sucedida dentre todos, a mais misteriosa, é que abre o primeiro frame do longa e o que o fecha, da mesma maneira - caminhando entre estranhos -. Isso porque "Alice" (e aqui as apas podem ser utilizadas), é talvez a mais sincera dentre os 4. Não com eles, mas para si mesma. Suas falas são chaves, seu poder é pontual. Sua fragilidade, nem tanto. Engana -se quem a lê como antagonista ou mesmo detentora das mais ardilosas mentiras. Na realidade, naquele aglomerado de prazeres e relações, ela é a cola que dá o ponto de quem são aquelas pessoas. 
(E o filme, como boa representação da realidade, pinta Anna como a desencadeadora de tudo, ora que genial).

Não por acaso também o livro de Dan se chama 'o aquário', e o aquário de fato surge na casa e ambientes diversos nos núcleos de cada um deles. Por que na real, são todos peixes, se afogando, boiando, afundando, e nadando, numa grande vitrine. Num grande aquário diante de nós telespectadores. Estão ali, na estante, na parede, sob uma fina camada de vidro que a menor rachadura, a menor poluição, finda.
Um filme sobre estranhos que estão perto demais. 

Mas, afinal, quem de nós não somos não é mesmo?

Hello, strangers?

Trailer:








Resenha: Stranger Things (Originals Series Netflix)

Mais uma serie original da Netflix, dirigido pelos irmãos Matt e Ross Duffer que pode ser classificada como um orgasmo latente aos fãs ou admiradores da década de 80.



Os Goonies, ET, Evil Dead, Conta Comigo, uma pegada de Poltergeist também (com direito ate a menininha parecida haha) me lembrou muito os filmes do John Carpenter também como O Enigma de Outro Mundo. Spielberg grita aqui.(sua fase boa ala ET - com direito ao mesmo barraco aos fundos da casa do Will, e até mesmo a icônica cena das bicicletas, mas com outro desfecho - e Contatos Imediatos de Terceiro Grau) com aquela vibe Alem da Imaginação, misturada com aspirações de Arquivo x e Stephen King. Trilha permeada por Bowie e The Clash para citar os mais evidentes.
De Dungeons & Dragons a Senhor dos Anéis, brincadeiras de RPG e Star Wars e Star Trek. Sam Raimi não fica de fora com seu Evil Dead - em todas suas sequencias. Na direção de arte temos O Tubarão, Madonna, Millenium Falcon.
Um emaranhado de referencias a cultura pop anos 80 (bebendo um pouco aqui e ali no final dos anos 70) onde a presença brilhante de Winona Ryder no elenco não é mero acaso, O que só reforça a nostalgia. No entanto não soa como copia ou repetição. Ainda que não haja nada de fato 'original'. A intenção é essa.
Desde a abertura a seus diálogos. Há muito de O Clube dos Cinco também e os filmes do John Hughes, no geral.
É como se a Sessão da Tarde e o Cinema em Casa inteiro se fundissem numa trama nova e independente.
(Há ate mesmo os clichês, há X - Men.)
Toda a estrutura clássica esta lá. Grupo de jovens formado por uma amizade que rompe barreiras de esquisitos da escola: o líder, o engraçado, o cético, o sensível. O elemento sobrenatural. O monstro ou o problema. A menina perfeitinha que ama o popular da escola, que é seguido por babacas e patricinhas com sexualidade latente. O professor da escola nerd. Os pais que nunca sabem o que esta ocorrendo. A estrutura família americana de fachada. Os valentões. A conspiração governamental. A batalha de EUA contra os Russos.
Ao contrario do que tenho lido, não acho que haja muito de Super 8 aqui. Por um único entendimento. Super 8 de JJ Abrans pretendia retomar os anos 80 pros anos 2000. Já Stranger Things é muito mais como uma revisita aquela década. Ha diferença entre as duas propostas.
Com os últimos episódios remetendo ate mesmo a Alien, a unica falha da serie talvez seja de ritmo. Isto é: são 8 episódios muito bem distribuídos em tempo de duração de cada episodio, mas que quando compilados, soam a partir do episodio 6 como uma especie de 'vamos enrolar um pouco a trama com assuntos e diálogos que não servem para muita coisa, para batermos a cota de duração da produção'' sabe?
Claro, que os filmes dos anos 80 e 90 também sofriam do mesmo. E isso nunca importou. E o bem da verdade é que não importa fora da escala de analise técnica.
Palmas ao elenco que caiu como uma luva, como ja citada Winona renascendo diante de nós, onde somente a aparição dela em tela já valeria qualquer coisa. Mas, o elenco infantil dá Show. Os quatro garotos - incluindo o que vive Will apesar de pouco tempo em tela - cumprem de forma primorosa a função de resgatar a inocência inteligente e de aventura cômica daquela juventude oitentista. Mas, minha consideração fica com a pequena expressiva Millie Bobby Brown que vive a hipnotizante Eleven. Com um quê de Nathalie Portman em seus momentos frágeis e de Sigourney Weave em seus momentos mais "Jean Grey', a guria segura de forma convincente uma personagem trágica e intensa.
Seja pelo resgate, seja pela diversão ou emoção que trás, ou para os que não são da época, pela novidade de conhecerem uma das melhores décadas da cultura pop (a famosa minha época), a serie vale a pena. Muito. Grata surpresa.
Como nota, achei interessante como apesar do resgate oitentista, a concepção ideológica da trama é permeada de maneira bem velada com as atuais, se percebermos a força das mulheres aqui diante dos desafios que surgem, onde não ha 'a mocinha que é salva pelo mocinho'. Alias, pelo contrario. E ate mesmo a naturalidade que personagens negros surgem sem que sejam para estabelecer alivio cômico com sua etnia, ou ate mesmo a homossexualidade entrando no assunto de maneira orgânica, sem que seja tabu, foco ou exatamente demérito de nada. Ponto pra netflix mais uma vez.

Trailer:











terça-feira, 12 de julho de 2016

Critica: COHERENCE



Com um orçamento de pouco mais de 50 mil dólares, e filmado em apenas 9 dias, esse longa tem sido conhecido desde sua estreia tímida em 2013 como um dos melhores thrillers sci-fi dos últimos 10 anos (outros se arriscam a dizer, que seja talvez desse novo seculo). O bem da verdade, é que ''Coherence'' é um deleite visual - por percebermos como que uma ideia suplanta a falta de orçamento -, de roteiro - onde o argumento vale por qualquer outra super produção hollywoodyana -, e que instiga justamente pela habilidade do diretor em criar uma tensão verossímil, mesmo diante da inverossimilhança possível - ou não - diante dos menos criveis as teorias quânticas, cientificas e etc etc.

A sinopse é simples: 8 amigos decidem se encontrar para uma reunião/jantar de confraternização para relembrar os velhos tempos. Durante o jantar, há um cometa chamado Miller que esta passando pela orbita da Terra. Entre as conversas os amigos relembram as noticias - a maioria infundada - de que pessoas acreditam que esse cometa e outros alteram certas coisas no planeta, como celulares que param de funcionar ou pessoas que alteram seu comportamento. 
Eis que ocorre um apagão em toda a vizinhança, e ao olharem pela janela para saber o que ocorreu, os amigos notam que ha apenas uma unica casa, a dois quarteirões de lá com luz. Apenas essa casa num amontoado de escuridão. Dois deles resolvem sair para pedir para usar o telefone dos moradores dessa residencia (pois um deles precisa falar urgentemente com o irmão). Ao voltarem, coisas estranhas começam a surgir.

Ele mescla dois conceitos básicos da ciência: A teoria do Multiverso e a teoria do Gato de Schrödinger, uma das mais famosas teorias acerca da incoerência e decoerência quântica.

O Multiverso versa sobre a teoria das cordas, estudos sobre a enigmática matéria escura e os resultados obtidos sobre a expansão crescente e sem retorno do nosso universo parecem exigir uma resposta que rompe com um paradigma fundamental - o universo é infinito e nele tudo está contido. A teoria do multiverso traz o sentido no nome: existiriam infindáveis universos numa espécie de queijo de energia quântica, onde bolhas se formam e somem sem parar. O nosso universo seria um deles. Resumindo: É a teoria de que existem milhares de universos. (o filme inclusive brinca com essa parte quando em certo momento um dos diálogos cita um pedaço de queijo e ketamina como aperitivo antes do jantar rsrs).

Já a base mais evidente do argumento do filme esta na teoria do Gato de Schrödinger ( Schrödinger foi um físico austríaco ganhador do Prêmio Nobel de Física e tido como um dos cientistas mais celebres do seculo XX), que consiste numa experiencia onde se coloca um gato imaginário dentro de uma caixa com um pote de veneno e fecha-o la dentro. A caixa onde seria feita a hipotética experiência de Schrödinger contém um recipiente com material radioativo e um contador Geiger, aparelho detector de radiação. Se esse material soltar partículas radioativas, o contador percebe sua presença e aciona um martelo, que, por sua vez, quebra um frasco de veneno. De acordo com as leis da física quântica, a radioatividade pode se manifestar em forma de particulas ou ondas - e uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. As ondas representam as probabilidades de ocorrência dessa dupla realidade, quando, na mesma fração de segundo, o frasco de veneno quebra e não quebra. Assim, teríamos duas possibilidades possíveis: 


a) O gato aparece vivo, porque, nessa versão da realidade, nada foi detectado pelo contador Geiger, e portanto ele não quebrou o frasco de veneno que mataria o gato.


b) O gato surge morto, pois nessa outra versão do mesmo instante de tempo o contador Geiger detectou uma partícula e acionou o martelo. O veneno do frasco partido matou o animal.


Seguindo o raciocínio de Schrödinger, as duas realidades aconteceriam simultaneamente e o gato estaria vivo e morto ao mesmo tempo até que a caixa fosse aberta. A presença de um observador acabaria com dualidade e ele só poderia ver ou um gato vivo ou um gato morto.
Simplificando, a teoria cujo o filme implica, é aquela famosa ideia de que existem vários universos e realidades coexistentes ao mesmo tempo/espaço e que nossas escolhas constantes alteram cada linha de realidade.
Dirigido por James Ward Byrkit (sua estreia na direção. Ele foi co-roteirista da animação ''Rango"), o filme brilha justamente por trazer esses conceitos de forma orgânica ao unir a ciência teórica, numa especie de experimento 'possível' através da desculpa de gancho de roteiro do cometa (que seria aqui a força inexplicável capaz de interferir nessas leis quânticas e físicas), mas usando isso para debater e refletir sobre as relações humanas e existenciais. Não importa muito a certo momento do filme como pode ser possível X ou Y situações, por que o que importa de fato são os pensamentos e atitudes daqueles 8 amigos diante daquelas milhares de possibilidades e situações apresentadas.
Todos os amigos ali, se reúnem depois de vários anos, cada um tendo uma escolha na vida que os levaram a vários caminhos diferentes. nem todos surgem satisfeitos com suas escolhas - como todos nós diariamente -. Quando esse lapso ocorre ali, cada ação altera uma realidade daquela dinâmica em diferentes espaços e tempos, mas altera também a dinâmica deles, com eles mesmos. Em certo momento uma das personagens diz que aquela experiencia poderia ser aquilo que todos nós humanos sempre no intimo queremos ao longo da vida: poder encontrar-se consigo mesmo em diferentes realidades de escolhas que não fez. Como eu estaria hoje se eu tivesse pegado o ônibus detrás e não aquele que veio antes? Como eu estaria se eu preferisse vir a pé ou de taxi? Como seria minha vida hoje se eu tivesse escolhido aquele outro curso, aquela outra roupa, ou simplesmente, acordado cinco minutos mais cedo? Ocorreria algo na minha vida, no meu caminho ate aqui diferente por causa dessa minima escolha que fiz? E se cada uma dessas possibilidades, desses 'eus' pudessem se encontrar num mesmo lugar e tempo e se confrontarem? Eu descobriria quem eu realmente sou em toda a vasta complexidade de facetas que somos?

Em vários momentos o filme me passou o clima da lendária serie Twilight Zone, de meados dos anos 50/60. Uma mescla de terror e suspense, com aplicações filosóficas, de desfecho surpreendente e instigante.

Apesar de parecer muito complexo, a dinâmica em si é simples, apos acompanhar o filme. basta prestar atenção nos detalhes que ele fornece - cada frase é essencial para o entendimento, por mais que na hora pareçam jogadas a esmo. Não são.

Eu pessoalmente só me enrolei de fato - e certeza que essa foi a intenção do diretor - com os 3 minutos finais do filme. Onde o conceito básico do experimento se choca com uma 'incoerência' do próprio sentido cientifico dele. Mas, que abraço outros conceitos possíveis, e por isso são teorias.

Contando ainda com uma trilha sonora pontual e certeira em cumprir o papel de ir preparando o clima para as ações - o que faz com que o filme as vezes tenha ares de Terror ou Suspense; uma ótima surpresa ainda é a fotografia que ainda que não tenha nada de muito rebuscada, possui uma logica narrativa eficiente, ainda mais quando se percebe os artifícios usados para burlar o baixo orçamento - como a utilização de velas, e luz ambiente. A câmera na mão aqui também é funcional e não apenas um recurso de linguagem. Parte pela produção modesta e parte para passar a sensação de proximidade com os espectador.

Um filme gigante como o tema que aborda, uma surpresa grata de estreia de um diretor que pretendo acompanhar e principalmente um alivio diante de tanta produção bilionária rasa por ai, que prova que uma ideia inteligente vale mais do que qualquer super câmera ou grande elenco famoso.

Recomendável (mas pode causar enxaquecas)





Trailer:





Ficha Técnica:

Direção: James Ward Byrkit
Roteiro: James Ward Byrkit, Alex Manugian (co-roteirista)
Elenco: Emily Baldoni, Maury Sterling, Nicholas Brendon, Elizabeth Gracen, Alex Manugian, Lauren Maher, Hugo Armstrong, Lorene Scafaria
Trilha Sonora: Kristin Øhrn Dyrud
Fotografía: Nic Sadler, Arlene Muller
Duração: 89 min.
País: EUA
Ano: 2013

Prêmios: Festival de Sitges como Melhor Roteiro (2013) e Gotham como Melhor Novo Diretor (2014)








sábado, 2 de julho de 2016

Team Jess - Gilmore Girls




Team Jess, Team Dean, Team Logan - e ha ainda os Team Marty e Team Tristan (sim, há).

Do que estou falando? Gilmore Girls claro, e os times de rivalidades entre os fãs que torcem pelo parceiro perfeito para Rory Gilmore.
O bem da verdade é que Rory Gilmore não estaria bem com nenhum deles. Ela terminou a sétima temporada em relacionamento serio com sua vida profissional e seu sonho em se tornar Christiane Amanpour, viajando o mundo, conhecendo e noticiando fatos.

No entanto, no imaginário de tantos fãs que cresceram na geração 'disney' e comedias românticas com Sandra Bullock, o fato de uma garota no meio da primeira década dos anos 2000 era inaceitável, e ficamos tentando imaginar com quem Rory teria finalmente ficado, já que os três parceiros oficiais dela ao longo da serie seriam potenciais possibilidades, já que ambos tiveram resoluções em aberto.

Eu, desde que conheci Jess Mariano - naquele seu estilo rebelde sem causa, James Dean a lá Kurt Cobain feat Bad Boy - soube de imediato que ele seria o meu escolhido como par perfeito para Rory.
Isso vinha muito mais do apego ao personagem - inadequado- do que por achar ele ideal para ela.
O tempo passou, cresci, fui me empoderando em questões sociais, de gênero e etc e etc, e cheguei a conclusão obvia, que o relacionamento de Rory e Jess nunca foi saudável.
Mas, ainda assim, dentre os três oficiais, cheguei a conclusão também, que nenhum foi saudável para ela. Os tr~es rapazes de diferentes formas foram nocivos para ela. Nenhum deles compartilhavam do mesmo momento e maturidade de Rory. nenhum deles eram passiveis de seus machismos e abusos de homem contra ela mulher.

Ainda assim, resolvi fazer a linha Annalise Keating e explicar aqui por que apesar de toda essa constatação, ainda assim sou um Team Jess fervoroso por mais de 13 anos.

Como nota é importante salientar que sou homem, e de forma alguma pretendo adentrar questões de feminismo que não me cabem quanto homem relativar. Aqui o que postarei sera apenas uma analise técnica baseada na construção do roteiro da serie e de minha visão totalmente tendenciosa de fã da serie,


Dean


Dean sempre foi e ainda é o simbolo do primeiro namorado perfeito. Aquela construção de namorado feito príncipe encantado, sonho d consumo. Alto, cabelos sedosos, cavalheiro, gentil, que move fundos e mundos pela sua princesa. Trabalhador, de classe media baixa. Dean foi o namorado perfeito para Rory. garota ingenua, sonhadora, delicada, extremamente independente e inteligente, que sonhava com o amor romântico desajeitado e próprio do inicio da adolescência. Daquele de mandar cartas e depoimentos no orkut.

No entanto, Dean tinha um enorme problema: possessividade, Em vários momentos o ciumes dele demonstrava um dom peculiar para cometer o que chamamos de gaslighting. Em todas as brigas dele com Rory de alguma forma sempre ela se sentia a culpada da situação e ele coitado, bondoso, gentil, garoto modelo surgia arrependido mas com clara noção ali entre os dois, de que ela exagerou, ela fez a situação rolar e ele tinha total aval para ter se irritado. Alias, a irritação é outro ponto que ao longo das temporadas foi surgindo de forma natural da personalidade dele, e que mostrava que ele apesar de todas as qualidades, é um cara de temperamento explosivo (lembra o Luke nisso).
Mas, o veridito final para eu avaliar que ele não é o par perfeito para a Rory, ocorreu com a primeira vez dela (na vida) e dele juntos. Dean era casado. Traiu a esposa com a Rory e ainda manteve a relação, mantendo ela como a amante. Ele com isso fez o papel de relacionamento abusivo para Rory e para a esposa. E se não bastasse, apos a separação (que veio apenas pela descoberta da esposa, se não provavelmente as coisas continuariam), ele se mostra totalmente inadequado para Rory. No que ela se tornou.



Logan



Bem, esse nem precisa muito de explicação. Mimado, rico, inconsequente. Ele une características de Dean e Jess num corpo só - numa versão loira de blazer e limousine -. Por mais que ao longo das temporadas ele se transforme e consiga demonstrar certas mudanças por causa da convivência com a Rory, Logan ainda assim tem a tipica postura do marido machista usual: tanto nas falas, na condução do relacionamento, quanto nas brigas e decisões que toma. Ha traição aqui, onde ele trai a Rory, comete mancadas e repetidas vezes se desculpa, onde ele inexplicavelmente surge, como coitado. É uma situação macro do Dean, só que com o plus - a seu favor - do amadurecimento. Aqui [é uma relação adulta.
Ao final, ele deixa um ultimato a Rory, e ela faz a sua escolha.


Jess


Jess foi a relação mais conturbada dela sem duvidas. Ainda que na relação com o Dean tenha tido traição, ainda que na relação com o Logan tenha tido ate prisão, foi com o Jess que Rory teve a relação mais ambígua e analiticamente mais complexa ate hoje. Jess tem um 'quê de Luke, tem uma inegável ligação de alma gêmea com a Rory nos gostos e pensamentos, na dinâmica - é a unica relação onde ela não precisou ensinar ele a ser algo (como foi com o Dean q teve que aprender a lidar com o jeito Gilmore de ser), e onde ela não precisou aprender a se doar/mudar por algo (como ocorreu com o Logan onde ele foi mudando por ela, e ela foi se transformando por ele). Com Jess Rory era ela, desde o começo ate o fim. Ela não precisava fingir, mudar, transformar. Ela era ela. E ele era ele. Com ela. Isso numa fase do final da adolescência. Onde Rory estava se descobrindo mulher, com desejos e medos, e ele numa incompreensão de sociedade extrema. Não deu certo. Ele de todos era o que transparecia maior relacionamento abusivo. Seja pela melhor amiga (Lane) não gostar dele, seja pela mãe (Lorelai) também não gostar dele, seja pelos avós não gostarem dele. Seja pela maneira 'despreocupada' que ele levava a relação. Explico: enquanto Dean e Logan sempre demonstraram continuamente fomentar e procurar a Rory, se explicar, e fazer mil coisas para ela, Jess jamais demonstrou ser adepto desse tipo de 'apego' de relacionamento. Muito pelo contrario. Feito um tipico Bad Boy ele sempre demonstrou sim gostar dela, mas sem se preocupar com convenções sociais de relação. Nunca quis agradar a família dela, nem era de ligar varias vezes ao dia, nem de procurar continuamente.

Ao final, com algumas mentiras por parte dele aos questionamentos dela, ele a abandona. Simplesmente some sem dizer adeus, após quase forçar uma situação sexual entre eles, dando a impressão momentânea a Rory de que ela mais uma vez era a culpada pela situação (notem ambos sempre arrumaram jeito de faze-la se sentir culpada por algo). Obviamente tudo ocorria por um problema pessoal dele, na vida pessoal dele, onde tudo estava dando errado e ele preferiu fugir da vida dela.


Anos mais tarde, Jess reaparece e ele é a peça chave para fazer Rory voltar a ser quem ela realmente é. Basta dois dias com Jess para ela lembrar quem ela é. Mais uma vez o roteiro nos mostra que Jess é o elemento tal qual sua mãe, que mantem Rory em seu próprio mundo. Jess tem um quê de Lorelai tbm (assim como tem uma quê de Logan, importante dizer. Ela só nunca foi parecida ironicamente com o Dean, de qual ela mais gostou).

Por essa leitura, sou Team Jess, por entender que a construção do personagem a liga a Rory. E não de maneira amigável, e sim amorosa. É o único com quem ela não tem relações sexuais, mas é o primeiro que ela demonstra querer a principio (com Dean e Logan foram eles que a procuraram para que ocorresse). Quando Jess reaparece ele é um artista, muito mais 'sociável'. A fase adulta esta ali, e condiz com a fase de Rory. Mas, esta na época se sente apaixonada por Logan - mas isso não a impede de beijar Jess.

Dos três, há evidencias ao longo da serie de que Jess é a unica pessoa que consegue rivalizar a atenção de Rory diante de sua mãe. Rory jamais deixaria nada intervir entre ela e a mãe. Com exceção de Jess, que sempre surgia como uma ruptura, não de distanciamento, mas de demonstração de que era a pessoa com quem Rory possuía uma ligação tão forte, em que ela, Rory, é capaz ate de perder a formatura da mãe e perder um dia de aula.

(Bacana também lembrar que Rory trai Logan e Dean com Jess e nunca traiu Jess com ninguém, assim como Jess foi o único que nunca traiu ela com ninguém)

Por isso, meu veredito é: Que Rory esteja sozinha ou na companhia de outra pessoa - homem ou mulher - que realmente esteja na mesma sintonia que ela e que seja compatível com o que ela se tornou. Caso não seja possível e ela precise terminar com um dos três, que seja Jess (o artista escritor).

*Como nota, revendo a sexta temporada, percebi que meu apego pessoal com o Jess se justifica por ele ver nos livros um escape do mundo. Próprio dos artistas, ele prefere viver e viajar nas paginas dos milhares de livros que lê - tal qual Rory - para fugir da sua realidade que a ele pesa. Eu como artista e escritor entendo e me vejo nisso.